
Perguntei assim ao Ciberdúvidas: Como os senhores avaliam o acordo quanto à dupla grafia de palavras como, por exemplo, puré, purê, adoção, por empréstimo, do francês purée? Parece-me que o que ampara a existência da dupla grafia é o respeito à fala regional, diatópica.
No caso do Brasil, que no seu regionalismo linguístico registra, também, em dicionário, a palavra pirê, sob provável cruzamento com pirão, do tupi, como lidaríamos com uma tripla grafia em sala de aula ou em formação de professores da língua portuguesa?
O Acordo não desrespeitaria, no tocante às prescrições da dupla grafia, à variação regional interna dos países ao fixar unicamente as duas formas puré e purê?
E do ponto de vista cultural isso não é ruim para o Brasil e também para Portugal?
Um abraço cearense.
Responderam-se assim:: Professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú :: Sobral, Brasil
[Resposta] A forma pirê não se encontra ao mesmo nível que a alternância ou facultatividade entre puré e purê. Pirê é um brasileirismo que deve ter entrada própria num dicionário. Não é, portanto, uma variante gráfica que se soma à alternância puré/purê.
Em contrapartida, as formas puré e purê são variantes fonéticas e gráficas da mesma palavra e, por isso, deverão ser contempladas na mesma entrada lexicográfica. Estas variantes enquadram-se pelo princípio da dupla acentuação que, explica o anexo II da legislação portuguesa ao Acordo Ortográfico de 1990, surgiu «como a solução menos onerosa para a unificação ortográfica da língua portuguesa». O referido anexo esclarece ainda o seguinte sobre o sistema de acentuação gráfica (bases VIII a XIII):
«2.3. Encontramos igualmente nas oxítonas [v. base VIII, 1.º, a), obs.] algumas divergências de timbre em palavras terminadas em e tónico, sobretudo proveniente do francês. Se esta vogal tónica soa aberta, recebe acento agudo; se soa fechada, grafa-se com acento circunflexo. Também aqui os exemplos pouco ultrapassam as duas dezenas:
bebé ou bebê, caraté ou caratê, croché ou crochê, guiché ou guichê, matiné ou matinê, puré ou purê; etc. Existe também um caso ou outro de oxítonas terminadas em o ora aberto ora fechado, como sucede em cocó ou cocô, ró ou rô.
A par de casos como este há formas oxítonas terminadas em o fechado, às quais se opõem variantes paroxítonas, como acontece em judô e judo, metro ou metrô, mas tais casos são muito raros.»
Concluindo, não vejo que, neste caso, o novo acordo ortográfico desrespeite as variedades regionais.
Carlos Rocha :: 11/02/2009
Textos Relacionados
Formas preferenciais em duplas grafias. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Portugal)
Novo acordo, ói, mudas, trema, duplas
Novo acordo, dupla grafia ó/ô
Novo acordo. Duplas grafias, facto, factor, etc.
A dupla grafia de ideia
?
[Léxico]
Hiato e ditongo em piada
Tombar = «registar»
O plural da palavra quebra-mar
Bilhete-postal, impresso, convocatória, aviso e convite
A translineação das palavras cooperação e Cisjordânia
O plural da palavra blister
O plural de selagão
A origem da palavra clérigo
«Controlo remoto»
Diferenças lexicais entre Portugal e Brasil
Mostra todas
[Resposta] A forma pirê não se encontra ao mesmo nível que a alternância ou facultatividade entre puré e purê. Pirê é um brasileirismo que deve ter entrada própria num dicionário. Não é, portanto, uma variante gráfica que se soma à alternância puré/purê.
Em contrapartida, as formas puré e purê são variantes fonéticas e gráficas da mesma palavra e, por isso, deverão ser contempladas na mesma entrada lexicográfica. Estas variantes enquadram-se pelo princípio da dupla acentuação que, explica o anexo II da legislação portuguesa ao Acordo Ortográfico de 1990, surgiu «como a solução menos onerosa para a unificação ortográfica da língua portuguesa». O referido anexo esclarece ainda o seguinte sobre o sistema de acentuação gráfica (bases VIII a XIII):
«2.3. Encontramos igualmente nas oxítonas [v. base VIII, 1.º, a), obs.] algumas divergências de timbre em palavras terminadas em e tónico, sobretudo proveniente do francês. Se esta vogal tónica soa aberta, recebe acento agudo; se soa fechada, grafa-se com acento circunflexo. Também aqui os exemplos pouco ultrapassam as duas dezenas:
bebé ou bebê, caraté ou caratê, croché ou crochê, guiché ou guichê, matiné ou matinê, puré ou purê; etc. Existe também um caso ou outro de oxítonas terminadas em o ora aberto ora fechado, como sucede em cocó ou cocô, ró ou rô.
A par de casos como este há formas oxítonas terminadas em o fechado, às quais se opõem variantes paroxítonas, como acontece em judô e judo, metro ou metrô, mas tais casos são muito raros.»
Concluindo, não vejo que, neste caso, o novo acordo ortográfico desrespeite as variedades regionais.
Carlos Rocha :: 11/02/2009
Textos Relacionados
Formas preferenciais em duplas grafias. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Portugal)
Novo acordo, ói, mudas, trema, duplas
Novo acordo, dupla grafia ó/ô
Novo acordo. Duplas grafias, facto, factor, etc.
A dupla grafia de ideia
?
[Léxico]
Hiato e ditongo em piada
Tombar = «registar»
O plural da palavra quebra-mar
Bilhete-postal, impresso, convocatória, aviso e convite
A translineação das palavras cooperação e Cisjordânia
O plural da palavra blister
O plural de selagão
A origem da palavra clérigo
«Controlo remoto»
Diferenças lexicais entre Portugal e Brasil
Mostra todas

Nenhum comentário:
Postar um comentário